quinta-feira, 8 de maio de 2008

As Andanças de Fulgêncio Borba - PARTE II

Todos se uniram numa sonora e coletiva gargalhada. Fulgêncio ruborizou-se, sentindo o sangue ferver, seus pés formigaram, voltou a sensibilidade nos dedos. Puxou uma banqueta, de madeira, com espaldo alto, sentou-se e apoiou os cotovelos sobre o balcão de fórmica, de um azul desbotado, engordurado e seboso, segurando a cabeça entre as mãos. O frio, aos poucos foi dando uma trégua naquele ambiente desconhecido e lúgubre. Anita, a atendente, depois de refeita das gargalhadas, trouxe-lhe um prato fundo, feito de barro, servido de sopa de berbigão, barbatanas de baleia desfiadas e um pedaço de pão de milho caseiro. Fulgêncio agradeceu a gentileza e atracou-se como há tempos não o fazia. Ao mesmo tempo em que saciava a fome, divagava num emaranhado de acontecimentos, ora recentes, ora distantes.
Lembrou-se de uma manhã ensolarada, na remota infância em Santana de Mirim, andando junto ao mano Custódio, sobre os pés de lata. Recordou, precisamente, cada palavra, cada som, cada cor daquela alegre manhã distante. Inclusive do trabalho para conseguir quatro latas de manteiga vazias, percorrendo todo o vilarejo e encontrando a última delas jogada às margens da imensa lagoa homônima. Riu-se ao lembrar da destreza que possuíam ao fazer os mais inacreditáveis malabarismos sobre as cabaças metálicas. No entanto, não entendeu porque pensava nessas bobagens do passado, justo numa noite longa e fria, recém chegado a uma vila de nome estranho, com um ar agradável que lhe enchia os pulmões e a cabeça de recordações. Decidiu ali, debruçado sobre o prato de comida, que procuraria guarida e permaneceria alguns dias no vilarejo.
Já se passavam vinte e oito semanas, desde que pousou por mais de dois dias seguidos em uma única vila. Necessitava ver e conhecer gente nova. Talvez ali fosse um bom lugar para isso. Se não o fosse, não teria muito trabalho para partir. Era apenas o tempo de juntar os trapos e cacarecos, colocá-los no trouxa e seguir viagem.
Quando acabava a refeição sentiu uma mão quente afagando-lhe o pescoço, um tremor percorreu-lhe a espinha da base até o couro cabeludo, fechou os olhos e veio em seus pensamentos a imagem de Camila. Entrou num transe momentâneo, até ouvir a voz macia e doce de Alaíde. Nesse momento, Fulgêncio, despertou de seus devaneios e sentiu o coração palpitar mais rápido.
Alaíde era uma mulher atraente, longos cabelos louros, escorridos até a cintura, olhos verdes, que pareciam esmeraldas, pele clara bronzeada pelo fustigante sol da região, cintura fina como um pilão, quadris largos, típico das holandesas parideiras, coxas grossas e bem torneadas, seios fartos e um sorriso hipnotizante. Era sem dúvidas uma bela mulher. Fulgêncio ficou se perguntando o que aquela mulher tão bela fazia numa pocilga de luzes coloridas. Como se adivinhasse os pensamentos do forasteiro, Alaíde falou calma e solenemente.
- Herança. Meu pai era dono de todas as casas do lado direito da estrada de ferro.
- E o que lhe aconteceu? – perguntou Fulgêncio, perplexo com a resposta à sua pergunta mental.
- Foi ao encontro de Iara - a Sereia, e nunca mais voltou. – respondeu a jovem, com um tom melancólico nas palavras.
- Eu era apenas uma garotinha quando ele partiu, fui criada por Dona Chimbica, uma velha conhecida de meu pai. Mas, infelizmente, Dona Chimbica não está mais entre nós, subiu aos céus como “Remédios – a Bela”. – completou a belíssima Alaíde.
Fulgêncio lembrou de ouvir qualquer coisa a respeito de Remédio, mas não pode precisar aonde, nem quando. Ficou em silêncio admirando a beleza de Alaíde, que se afastou para dar algumas pequenas ordens às meninas da casa.
Procurou novamente o relógio de bolso e conferiu as horas. Aproximava-se das quatro horas da madrugada, os galos garnisés da vizinhança davam os primeiros sinais da alvorada. Fulgêncio necessitava de um bom banho para recompor a postura de um valente ex-soldado da revolução. Nesse mesmo instante ouviu ao longe o apito do trem, que se aproximava vagarosamente, como de costume, trazendo mantimentos e passageiros até o fim da linha, em Y-embê.
O mesmo trem partiria, no começo da noite, fumegando como se não conseguisse sair do lugar por força das encomendas que levava, carregado de uma variedade de produtos extraídos de baleias: óleo, para a iluminação pública na capital, barbatanas, para a confecção de espartilhos e sombrinhas das madames, carnes e nadadeiras, para o preparo de pratos sofisticados no hemisfério norte, e ossos, que serviriam para a decoração de bares e casas da velha e rançosa nobreza da Europa Setentrional. Nos vagões finais, iam os passageiros, admirando a paisagem invernal, em meio às gaiolas, porcos, galinhas e tudo o mais imaginável e possível.
Fulgêncio dirigiu-se à Alaíde e perguntou-lhe se havia algum quarto disponível. A jovem acenou-lhe positivamente. Acertaram o preço e Alaíde o conduziu por um longo e estreito corredor com inúmeras portas perfiladas, desenhadas e escritas nas mais diversas cores e idiomas, como um gigantesco painel. Ao final do corredor, parou, abriu a última porta a esquerda, acendeu a vela pendurada em um castiçal de cobre envelhecido e azinabrado e disse:
- É simples, mas aconchegante.
- Não sou de muito luxo. – retrucou Fulgêncio.
- Se quiser banhar-se peço à Anita que aqueça água. – disse gentilmente Alaíde.
- Não, pode deixar, estou muito cansado. Preciso de um longo sono antes de pensar em algo mais. – respondeu Fulgêncio, agradecendo a gentileza com um sorriso.
- Fique à vontade. – disse a bela jovem, retirando-se em seguida.
Fulgêncio largou a trouxa sob a escrivaninha, sentou-se na cama e vagarosamente desamarrou os surrados coturnos.
O forte vento, vindo do pólo sul, assobiava nos velhos postigos apodrecidos, pela maresia e umidade. A sinfonia marinha era ainda mais forte no alvorecer. Os pássaros, em algazarra, revoluteavam naquela bela aurora de julho. O trem aproximava-se cada vez mais, fazendo tremer a casa e tudo o que havia em seu interior. A sombra produzida pela meia luz da vela tremulava, formando incontáveis figuras indecifráveis.
Desvencilhou-se do calçado, estirou-se na cama com a velha calça de tergal, tirou apenas o ponche, amigo inseparável na sua longa jornada solitária. Sentiu as pernas formigando, sentiu terríveis cãibras nas panturrilhas, que chegavam a doer-lhe os rins. Massageou e aqueceu as pernas até que caiu em um sono profundo.
Dormiu por doze dias. Alaíde ia diariamente verificar se o forasteiro necessitava de algo, mas Fulgêncio manteve-se imóvel por todo o tempo, em virtude do cansaço acumulado. Nem durante as comemorações de San Juan Baptista, na qual a vila recebia anualmente milhares de visitantes para uma semana de festejos, o homem acordou ou sentiu-se perturbado pelo barulho e pela agitação no povoado. Nem os gramofones adaptados, que anunciavam a Mulher Barbada da Finlândia, o Homem Bala Britânico, o Faquir Indiano, de 200 anos e o Anão engolidor de espadas, principais atrações do circo Neozelandês, incomodaram Fulgêncio em sua profunda hibernação. No décimo dia, Alaíde começou a ficar preocupada, acreditando na possível morte do forasteiro, frente ao tempo e imobilidade do homem. Tranqüilizou-se apenas após certificar-se que Fulgêncio Borba não tinha a temperatura, a cor e nem a aparência dos mortos. Ao menos, não daqueles que a jovem conheceu ou presenciou.


Autor: Beda Batista
Escrito em: Julho de 2002
Revisado e ampliado em: Novembro de 2003.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

As Andanças de Fulgêncio Borba - PARTE I

Fazia um frio de doer os ossos naquela noite invernal de meados de julho. Fulgêncio Borba caminhava lentamente sobre os trilhos, ao longe ouvia a algazarra dos cães. Ia sem rumo, como há tempos o fazia, desde que decidiu largar tudo em sua terra natal. Caminhava ao mesmo passo das lembranças. Recordava os pormenores da longínqua infância simples e feliz, apesar das inúmeras privações sofridas. Pensava em como estaria seu irmão, Custódio Borba. Sentia saudades, mas não se arrependia de ter colocado a trouxa de roupas e pertences pessoais nas costas e seguido rumo desconhecido, que o trouxera àquelas bandas. Sua barriga emitiu um som fenomenal alertando-o da fome impertinente.
Nos últimos dois dias o infeliz alimentava-se apenas de uma parca ração de grão-de-bico e algumas bananas que colheu ao longo do caminho, nas proximidades da distante vila de Catingó. Puxou o relógio da algibeira e sob o luar de inverno constatou que caminhava há dez horas ininterruptas. As pontas dos dedos já estavam dormentes, dentro dos coturnos, herança do exército revolucionário, no qual acabou perdendo além da dignidade e boa parte da juventude, os dedos mínimo e anular da mão esquerda.
A guerra era coisa triste, disso lembrava-se muito bem. Além das mutilações, do desespero vivido nas trincheiras e do vazio que sentia ao matar os inimigos, que para ele poderiam ser até mesmo amigos, o maior sofrimento era a tal da hierarquia. Sempre, desde garoto, avesso às regras e aos convencionalismos, impetrados pela sociedade, costumava pagar o preço pelas idéias contrárias e contestadoras quanto ao sistema, seja lá qual fosse o sistema. Fulgêncio era, como diziam seus pais, um caso perdido.
Não sabia precisar quantas vezes foi mandado à solitária por desacatar ordens de seus superiores. Considerava-os, um bando de cornos hipócritas, aproveitadores, chupins do estado e do povo.
Seu maior ressentimento com o exército não era a perda dos dedos, mas a falta de reconhecimento de um ato de bravura, protagonizado por ele e seu irmão, Custódio, que culminou com o extermínio de três pelotões de sessenta homens cada, na guerra das Guianas, quando retornavam da encruzilhada dos mundos, caminho antes percorrido por Átila – O rei dos hunos, foram pegos de surpresa com um número inferior de soldados, conseguiram se embrenhar na mata e moveram-se como Gambé Maranduvá, O Fantasma, entocaiando o último pelotão inimigo apenas com pequenas e frágeis zarabatanas, presente de um grande amigo índio de uma tribo Kaigang do Norte, a qual, até hoje, faz parte da Unificação das Tribos da Mata.
Para Fulgêncio Borba aquela foi a gota d’água. Além de não reconhecerem o ato de bravura de ambos, ainda os acusaram de traição. A injustiça o enojava e a raiva subia-lhe à cabeça.
A fim de evitar mais problemas, comunicou seu irmão, Custódio, da decisão de deserdar. Este, por sua vez disse que o acompanharia. E, assim o fez dois dias depois quando conseguiram se livrar das sentinelas escolhidos, pelo General Gutierrez, para escoltá-los até o quartel general onde o estado maior estava alojado e os julgariam por alta traição às forças armadas.
Fugiram para os Montes Silvinos, naquela mesma noite acabaram se separando e nunca mais se encontraram, foram perseguidos por colegas de farda durante seis longos meses. Fulgêncio alcançou o Porto de Grande Rio, no extremo sul do país, viu exposto em todos os locais públicos fotos sua e de Custódio, procurados por traição. Embarcou clandestinamente em um cargueiro de Bandeira Francesa, porém com tripulação que mais parecia os operários de Babel, tamanha variedade de nacionalidades dos marujos. Pelos seus cálculos falavam-se mais de 25 línguas naquela velha barcaça carcomida pelo salitre e pelas intempéries. Foi descoberto, dois meses após o início da viagem, dividindo um porão com ratazanas que seriam facilmente confundidas com gambás, devido ao tamanho. Estava verde, fraco e zonzo. Não manifestou sequer uma ponta de resistência, mesmo que o quisesse não conseguiria, tamanha a fraqueza que o abatia. Foi surrado e jogado junto à pilha fedorenta de lixo, no cais do porto. Não tinha a mínima idéia de onde estava, imaginava estar em algum país sul-americano, pois tudo o que ouvia era em castelhano.
Enquanto caminhava naquela madrugada fria de meados de julho, lembrava-se dessas aventuras e de tantas outras, das quais alguns detalhes já não lhe eram claros. Deu uma topada em um dos dormentes de madeira daquela interminável estrada de ferro. Não sentiu dor alguma, seus dedos estavam petrificados. Sacou da trouxa seu velho e inseparável cantil e sorveu dois goles de uma cachaça curtida em barril de carvalho por longos anos, talvez duas décadas. Aquele líquido lhe deu forças para continuar a caminhada. Logo à frente, sobre um monte no lado direito, avistou uma infinidade de cruzes, estava diante do cemitério. Fez o sinal da cruz repetindo o ato três vezes, como sempre o fazia ao passar por jazigos ou igrejas e concluiu mentalmente que deveria estar próximo ao vilarejo.
Lembrou de Frei Antônio Maria de Los Santos e suas palavras domingueiras: - Toda cidade ou vila tem ao menos um cemitério, para enterrar os seus; uma igreja, para celebrar as bodas; e uma praça, para promover as festas santificadas.
Isso era uma verdade incontestável, como pôde verificar ao longo de uma vida sem paradeiros ou destinos certos.
Cansado e faminto resolveu apressar o passo. Adiante, encontrou, às margens de uma linda lagoa que refletia a imensa lua invernal, dois homens de aparência rude pedalando freneticamente suas bicicletas, junto à linha férrea, e perguntou-lhes.
- Como se chama esse povoado?
Um dos homens, grande, vermelho e bonachão, respondeu-lhe já se afastando:
- Chama-se Y-embê, forasteiro.
- Que nome estranho! - pensou Fulgêncio, consigo mesmo.
Ao final de uma longa curva avistou as primeiras luzes da vila. Escutou uma música alegre aproximando-se e, ao fundo um som forte. Deteve-se por um momento para certificar-se de que seus sentidos não o estavam traindo. Na verdade era o som do mar. Aquele som inconfundível lhe deu a certeza de que o mar estava próximo. Caminhou mais um quarto de hora e teve uma das visões que haveria de se lembrar dez anos depois quando estaria gravemente ferido, após a explosão da caldeira na armação baleeira de Y-embê. Viu a mesma lua, que há pouco estava refletida na lagoa, imensa sobre um mar bravio e que exalava um suave perfume de rosas. Sentiu-se vivo, novamente. Apressou ainda mais o passo, principiando a correr com os pés a essa altura completamente dormentes. Avistou a poucos metros um desordenado de casas maltratadas com luzes coloridas. Os telhados irregulares misturavam folhas de zinco, que refletiam a lua, telhas de amianto e até latas de azeite abertas de qualquer maneira.
Parou em frente à primeira casa. Era uma pequena casa de um azul desbotado, os postigos das duas janelas frontais estavam entreabertos, a porta estava escancarada. Do interior vinha uma mistura de música tocada por vitrola, gargalhadas, sussurros e gemidos. Entrou e dirigiu-se ao balcão. Uma mulher franzina o atendeu. Tinha longos cabelos negros, olhos pequenos, nariz pontiagudo, assim como os italianos, boca pequena, lambuzada com batom de um vermelho berrante, o rosto marcado pelo tempo a envelhecia de tal maneira que aparentava uma idade muito superior a que realmente deveria carregar nos ombros.
- O que o senhor deseja? – perguntou à Fulgêncio, com uma voz fina e enjoada.
- Preciso de algo para comer. – respondeu Fulgêncio, mais esfaimado do que cansado.
A mulher deu uma gargalhada estridente. Todos nos interior da velha casa olharam o pobre forasteiro, inclusive Alaíde, que jogava uma partida de bilhar, no centro da sala mal iluminada, na qual havia uma velha mesa de snooker com o pano verde remendado tantas vezes que mais parecia uma colcha de retalhos. Àquela, foi a única mesa de bilhar durante dois quartos de século no vilarejo. Entalhada em pinho de Riga, a qual cupim nenhum do mundo consegue penetrar, nem mesmo os famosos e temidos cupins gigantes da Ilha de Itacolomi. Foi trazida pelos primeiros caçadores de baleias que chegaram à região, muito antes da linha férrea e do porto serem construídos.
- Qual é a graça? – perguntou Fulgêncio, desolado.
- Ora, o que não lhe faltará por aqui é o que comer. – emendou a pequena atendente, em meio às gargalhadas.
Autor: Beda Batista
Escrito em: Julho de 2002.
Revisado e ampliado em: Novembro de 2003.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Custódio Borba - parte final

Gambé Maranduvá se deparou com uma paisagem alucinante. Foto: Fotosearch.com.


Gambé foi um dos primeiros desbravadores da região leste continental. Deixado para trás pela tripulação de um velho galeão francês, numa viagem de reconhecimento à costa, então, desconhecida. Viu-se sozinho durante dias em praias de areias alvas e fundos de corais, costões rochosos e gigantescos coqueiros. No início, acreditou tratar-se apenas de um ligeiro engano. Com o passar dos dias, percebeu que seu destino estava traçado e que haveria de nunca mais voltar à sua terra natal, se dependesse da carcomida embarcação que o deixou.
Certo de que haveria de lutar para sobreviver naquele território inóspito, tratou de providenciar abrigo, erguendo uma cabana de pau a pique, cobrindo-a com as abundantes palhas de coqueiros. A comida era farta, tanto em frutas silvestres, como em frutos do mar. Começou a fazer incursões diárias colocando em prática uma série de conhecimentos adquiridos ao longo de toda uma vida de descobertas territoriais. Numa dessas investidas diárias deparou-se com nativos seminus que falavam um dialeto estranho. O primeiro contato com os nativos seria interessante se não fosse traumático. Cercado pelos homens do grupo foi levado a uma aldeia no meio da selva, a meio dia de caminhada. Já estava se sentindo como a verdadeira caça do grupo, quando foi amarrado sob uma frondosa figueira centenária. Durante toda a tarde observou o grupo nativo e notou a sua forma de organização. Os mais velhos coordenavam às ações dos jovens. As mulheres cuidavam da preparação dos alimentos, os homens apenas traziam a caça. As crianças menores brincavam de caçar, enquanto as maiores preparavam flechas, martelos e machadinhas. O longo período de isolamento o fez despertar para sentimentos e pensamentos pervertidos enquanto observava as jovens mulheres caminhando de peitos nus e quadris semicobertos. Nada passou despercebido pelo olhar atento de Gambé Maranduvá. Até que foi separado da grande árvore e levado ao interior de uma grande cabana de bambus-açús amarrados com cipós. Várias redes de cipós trançados pendiam da firme estrutura. Diversos couros de animais selvagens, com desenhos estranhos e pinturas das mais variadas cores, enfeitavam as paredes ao mesmo tempo em que cobriam as frestas.
No centro do ambiente, sentado com as pernas cruzadas e um longo cachimbo de ossos, do qual brotava uma densa fumaça branca com aroma de alcaçuz e menta, pendendo no canto direito da boca, um homem centenário com uma expressão tranqüila, apesar da pele queimada e embrutecida pelo sol implacável daquela região, fez um sinal com a mão esquerda, convidando-o a sentar. Gambé virou-se e mostrou-lhe o punho amarrado para trás. O velho homem fez um pequeno sinal aos homens, que, imediatamente, o desamarraram. Gambé fez uma reverência de agradecimento e sentou-se de frente para o velho, que o olhou nos olhos como que tentando perceber os desígnios da alma do infeliz abandonado. O velho, sem pronunciar uma só palavra, estendeu o cachimbo ao convidado, apesar de ressabiado, este o pegou e deu longas baforadas. O velho permaneceu imóvel, com a mesma expressão tranqüila, observando-o. O marinheiro começou a sentir-se zonzo e cansado, ao mesmo tempo em que transpirava de forma descomunal. Em seguida, teve a sensação de estar flutuando, e fez uma longa viagem astral, indo aos mais recônditos lugares que conhecia, sempre acompanhado de perto pelo velho nativo. Quando recobrou a consciência, estava deitado numa das redes, ainda observado pelo homem sentado no chão central da cabana. O velho aproximou-se dele e falou na língua de Gambé que ele poderia ficar e juntar-se ao grupo se quisesse ou seguir seu rumo se assim o preferisse. Gambé teve a nítida impressão de haver passado por um teste de admissão, tomou por fim a decisão de ficar e conhecer melhor aquele estranho povo. Dessa forma, foi iniciado em todos os ritos dos Inaraug, destacando-se no aprendizado dos dialetos dos povos ribeirinhos e do interior. Descobriu que viviam da caça e da pesca, além da colheita de frutas silvestres, abundantes naquela região, iniciou as técnicas de plantio já dominadas por outros povos em terras remotas. Tornou-se um grande guerreiro da tribo e teve o direito e a honra de deitar-se com tantas virgens nativas quanto quisesse. O velho sábio tornou-se o unificador de todos os povos da mata, Gambé por sua imagem de força e coragem foi proclamado o grande guardião da floresta, tendo a incumbência de organizar proteção aos povos amigos unificados, ensinar as suas famosas e difíceis técnicas de defesa, além de todas as tarefas rotineiras do cargo. Quando tudo parecia transcorrer na maior tranqüilidade, eis que surgem novas embarcações vindas de alto mar. A inamistosidade dos marinheiros e dos superiores acabou por deflagrar uma verdadeira carnificina. Munidos de armas que cuspiam fogo, como assim diziam os nativos, os intrusos iniciaram um banho de sangue. Gambé retirou todos os sobreviventes e levou-os ao interior da mata, organizando, assim, uma grande resistência, que utilizava como trunfo as tocaias e segredos da mata. A luta armada durou longos quatro anos, quando por fim conseguiram pegar o fantasma. Gambé recebera essa alcunha por mover-se rapidamente na floresta e dizimar hordas de Selar. Os Inaraug restantes, não passavam de cem. Não houve resistência. As mulheres foram humilhadas, as crianças tornaram-se escravas, os velhos foram subjugados e largados à sua sorte. Gambé foi preso e amarrado na proa de uma das embarcações como um troféu. Durante quatorze dia ficou sob sol, chuva e sereno até que um grande grupo de puros e miscigênicos, liderados pelo velho sábio, irrompeu da mata munidos das mais estranhas peças e dizimou para sempre os intrusos, libertando Gambé e os seus das mais terríveis e sofridas provações. A floresta permaneceu em festa por vários dias e várias noites. Para sempre aquela data seria lembrada, até mesmo na pacata vila de Santana dos Prazeres, da qual, Gambé Maranduvá – O Fantasma, foi o descobridor e até hoje é aclamado como protetor do povo.
Pessoas das mais diversas raças, credos e cor chegavam e montavam suas barracas e quitandas. A rua do Porto tornava-se numa imensa jogatina pública, os pipoqueiros, baleiros, biscateiros, vendedores de aguardente, ciganos, videntes, evangelizadores, libertadores, doutores e outros eiros e ores mais, amontoavam-se às cotoveladas para disputar um lugar onde pudessem colocar as barracas. As barracas da roleta, do tiro ao alvo e a de arremessos de dardos eram as mais disputadas, com filas organizadas que se tornavam quilométricas no meio da noite. A banda de música não parava um só minuto, deixando os músicos esbaforidos em pandarecos. Os jogos de azar, apesar de proibidos em todo o território nacional, eram praticados livremente sob a torcida e os olhares atentos dos policiais da guarda nacional. O de maior destaque era o jogo em que se apostava num animal que correspondia a um número. O resultado corria no final da noite sendo válidos os últimos cinco números do bingo beneficente promovido pela Igreja Universal da Salvação de Santana dos Prazeres.
Durante as festividades de comemoração do centenário de libertação do desbravador e guerreiro Gambé, o misterioso e velho índio, que trazia de arrasto um baú da mais pura canela preta, recoberto de trapos de chitão da cor azul, com babados de ouro e prata, aproveitou a multidão que chegou à vila e sumiu como que por encanto. Nunca mais se ouviu falar no silvícola misterioso e nem se teve certeza de quais os reais motivos que o trouxeram a Santana dos Prazeres.

Autor: Beda Batista
Escrito em: Setembro de 2002.
Revisto e Ampliado em: Março e Agosto de 2004.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Custódio Borba - parte II

Registro único de Emerenciana - a virgem. Foto: Fotosearch.com

Emerenciana, a Virgem, enclausurou-se no sótão do sobrado e nunca mais se retirou dali, nem para banhar-se. Os cabelos e unhas não foram cortados, uma única vez após aquela noite trágica de inverno. Alguns maledicentes afirmam que a garota transformou-se numa feiticeira e que pratica religiões africanas, inclusive magia negra e vodu. Embora, ninguém mais, exceto sua criada Madalena, a veja desde então.


Velho índio chamado às pressas por Dom Carmelo. Foto: Fotosearch.com

O velho índio permaneceu longa data em Santana dos Prazeres, sem se comunicar com nenhum morador do vilarejo. Todos pensaram que o indígena fosse mudo, quando de súbito, Zé Bento, homem de ouvir muito e falar pouco, manifestou-se dizendo: “Como o pobre homem pode ser mudo, se fez as invocações dos espíritos?”.
Foi quando todos da cidade lembraram o motivo da visita do silvícola. O tempo passava tão lentamente na vila, que as pessoas acabavam por esquecer datas, e motivos de chegadas e partidas. Talvez o único, que mantivesse os sentidos e as lembranças intactos fosse Custódio Borba. Enclausurado, por opção, em seu barraco às margens da praia, tinha poucos amigos e detestava jogar conversa fora. Era dado a estudar as estrelas e coisas do céu, bem como, as do mar lhe atraiam. Tornou-se homem de confiança e leal amigo de Zebedeu, viajaram durante anos e lutaram juntos na guerra da Libertação das Guianas e conheceram, pessoalmente, o lendário Coronel Aureliano Buendía. Certa vez o ajudaram a escapar de uma emboscada preparada pelo governo, em plena selva amazônica. Foram reconhecidos como amigos e cavaleiros de Macondo, recebendo a Cruz Real com todas as honras militares que a ocasião exigia. Isso foi há muito tempo. As lembranças o incomodavam, pensava na mutilação de seu irmão Fulgêncio Borba, na guerra das Guianas quando retornavam do encruzamento dos mundos, caminho antes percorrido por Átila – O rei dos hunos, e quando deserdaram separando-se e nunca mais se encontrando. Lembrou de todas as histórias que ouviram dos ciganos e beduínos que conheceram ao longo dos tempos na antiga e remota Cazuota. Principalmente, de Odara, a linda cigana, que fazia as mais inimagináveis previsões e leituras manuais.
Ressurgiu das inconscientes lembranças, quando a porta tornou a bater com força. Calmamente, levantou-se e a escancarou, sentiu a leve brisa do mar afagar-lhe os cabelos, inspirou profundamente e observou os pescadores carregando os carros-de-boi. Por um momento exitou em tomar a rua esburacada e empoeirada. Largou o mate e apertou forte entre os dentes o cigarro aromático, acendendo-o novamente. Caminhou em direção à praia para ver o resultado da pesca, sem pensar em nada. O céu começava a escurecer na direção em que nas noites estreladas via-se o cruzeiro do sul. Na ponta da ilha, um garoto saltava das pedras para o mar, sem preocupar-se com as baleias e golfinhos que revoluteavam nas proximidades.
O pequeno Pedro aproximou-se sem cerimônias e perguntou-lhe se os araçazeiros
[1] já estavam carregados. Custódio, surpreso com a investida do garoto, respondeu que sim e que este poderia buscar os frutos quando quisesse. Pedro saiu em disparada para comunicar aos amigos sobre a novidade doce dos araçás.
De súbito, um sem número de garotos aglomerou-se nas árvores frutíferas das imediações da casa de Custódio Borba. Ele de longe apenas observou e riu-se sozinho das pequenas lições de felicidade do cotidiano infantil.
Ao aproximar-se dos barcos sentiu o forte cheiro dos crustáceos, que vinham perdidos nas redes de pesca, misturado ao aroma agradável do alecrim, do loro e do açafrão ferventes num caldo de baleia, preparado sob as frágeis coberturas dos barcos, numa grande panela de barro, para as comemorações do centenário de libertação de Gambé Maranduvá – O Fantasma.

[1] Pequena árvore silvestre frutífera.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Custódio Borba - parte I

Bem, antes de começar a partilhar dos contos que escrevo gostaria de fazer alguns esclarecimentos.
Alguns personagens e lugares são reais, embora, por opção, eu tenha alterado nomes e datas a fim de preservar as pessoas envolvidas. As histórias são fictícias, porém estão misturadas a fatos históricos reais o que, na minha opinião, valoriza ainda mais os textos.
Espero, sinceramente, que você curta e tenha uma boa leitura. Se quiser fazer algum comentário, terei o prazer de responder.

Beda Batista



A TRANQUILIDADE DE CUSTÓDIO BORBA
Pescadores e curiosos em volta do belo lance de tainha. Foto: Arquivo Beda Batista.

Custódio Borba não teve tempo de segurar a porta. O forte e doentio vento nordeste, típico dos agostos tristes, na pequena vila de pescadores, que perdurava há exatos 45 dias, a fez bater com tamanha violência que o abrigo do velho homem tremeu como num terremoto, fazendo cair o liquinho[1] que iluminava o ambiente lúgubre. O calor insuportável levava a população diariamente a abrigar-se sob as frondosas jabuticabeiras emborcadas e poeirentas do vilarejo. No entardecer, os pescadores puxavam as redes de pesca abarrotadas de sardinhas e papa-terras. Da cozinha, da velha casa carcomida e mal tratada pelo salitre, Custódio Borba com olhar perdido observava a movimentação na praia. O fogão à lenha aquecia a água para o mate[2] de fim de tarde, aproveitou e derramou uma mancheia de amendoins, colhidos na pequena horta, sobre a chapa para assar, enquanto enrolava lentamente seu cigarro de ervas aromáticas holandesas. O vento lá fora parecia não estar disposto a cessar. Os uivos dos eucaliptos e o torcer dos galhos das figueiras centenárias produziam uma música aguda e irritante. Os carros-de-boi[3], utilizados como meio de transporte, estavam perfilados na praia aguardando o fim da puxada de redes, para iniciar o transporte dos frutos do mar.
Por essa época chegou à vila de Santana dos Prazeres, vindo das águas quentes das Bermudas, um velho índio, que trazia de arrasto um baú da mais pura canela preta, recoberto de trapos de chitão da cor azul, com babados de ouro e prata. O misterioso índio chegou de repente, instalou-se nas grutas formadas pelas pedras do costão e percorreu todo o promontório até encontrar a gruta do cabeleira. Ali se pôs a invocar santos e espíritos durante dias, até que o vento enjoado foi de súbito acalmando e por fim tornou-se uma leve brisa refrescante, já com direção oposta. Os boatos que se seguiram foram os mais variados. Embora o que mais se difundiu dava conta que Dom Carmelo, homem viajado e vivido, político influente e atencioso, dono de terras a perder de vista e cultivador de manacá
[4] e das secretas maçãs do amor, mandou chamar o velho índio para exorcizar o vilarejo do mal de Zebedeu.
Zebedeu foi seu capataz e homem de confiança, desde os remotos tempos da pesca das baleias. Era o responsável por recrutar, organizar e liderar os grupos que faziam incursões ao alto-mar para pescar os grandes cetáceos. Os homens que se aventuravam no mar eram premiados com quantias de grande monta, tinham privilégios na escolha de púberes para fins de matrimônio e de concubinas, também. Zebedeu, homem forte e de pele escura, tinha sangue de bugres e árabes, herança de seu bisavô, Amon o Altivo, marinheiro que deu a volta ao mundo mais de vinte vezes. Todos o respeitavam e o admiravam. Muitos marinheiros deviam-lhe a vida, salva em inúmeras tempestades marinhas.
Dom Carmelo, homem zeloso e paternalista, tinha uma filha de nome Emerenciana. Ainda menina, Mere a Virgem, como a chamavam carinhosamente, apaixonou-se e tinha sonhos inapropriados para a sua idade, com Zebedeu. Embora, desconhecesse os sentimentos da garota, Zebedeu nutria igual paixão secreta e impertinente. Tudo poderia não passar de uma simples paixão se ao completar seus dezesseis anos, Mere, não tivesse rompido a noite fria de inverno e procurado Zebedeu em seus aposentos, completamente nua sob o manto branco de núpcias, utilizado por todas as suas ancestrais desde a bisavó de sua tataravó. Loucos e cegos pela ardente paixão o casal se entregou aos devaneios do prazer e da luxúria. Na manhã seguinte, Zebedeu, como prova de sua honradez e subserviência procurou Dom Carmelo para pedir a mão de Emerenciana, com fins de formalizar assim a união e a paixão de ambos. Dom Carmelo, homem justo, mas incapaz de se submeter aos caprichos e à miopia do amor, não só negou-lhe a mão da filha como o expulsou a tiros e palavras de ingratidão, prometendo-lhe toda a sorte de maus agouros imagináveis. Zebedeu, homem de bem e de palavra, do qual se era cediço, nos quatro cantos do mundo, firmar acordos com apenas um fio de bigode, resignou-se a aceitar as determinações de Dom Carmelo, não sem antes prometer que o velho lorpa ouviria para sempre seus lamentos e murmúrios quando o vento soprasse do Equador. E assim o foi. A partir daquele dia, o vento nordeste entrava com mais intensidade e perdurava por longos dias, às vezes, meses e Dom Carmelo, apesar de seus quase dois séculos de idade, ainda escutava o fiel empregado nos dias que se sucediam o vento.



[1] Liquinho – Objeto utilizado para a iluminação de ambientes. Utiliza em seu funcionamento, óleo de baleias, gás ou querosene, como combustível.
[2] Erva Mate – Planta rasteira servida com água quente, bebida regional dos pampas. Em geral, utiliza-se uma cabaça (porongo), chamada de Cuia e uma Bomba, espécie de canudo de prata.
[3] Carro de Boi – Carro feito de madeira, em geral de 02 rodas, utilizado como transporte através da força animal (bois) por meio de cangalha de madeira.
[4] Manacá – Arbusto ornamental brasileiro.